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Duas Macharimbés foram cortadas em Altamira na frente da Universidade Federal do Pará. No tronco ferido, a vida recusa o fim. Foto: Lela Beltrão/SUMAÚMA

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É verão e não tem vento. O tempo está seco e as folhas das árvores não balançam. O chão range em Altamira, Amazônia paraense, e não há nuvens para esconder o sol, que castiga a cidade. No meio da tarde rompe um estouro cru e seco. É uma vagem de semente. Daquelas que guardam uma grande árvore dentro. O calor ajudou – fez pressão até a vagem estourar e trazer ao mundo uma nova Macharimbé. Ela será chamada de Ipá, que significa árvore na língua Xipai.

Ipá pode ter sido colhida na mata próxima à cidade ou ter vindo de uma Macharimbé já plantada nas ruas de Altamira. A semente deve ter sido levada a um viveiro, junto de outras – provavelmente pela prefeitura, como costuma ocorrer na arborização urbana. No viveiro, talvez tenha estranhado o saquinho com terra onde foi plantada. Mas, pela memória genética herdada de sua mãe, ela sabia crescer.

Quando já tinha o tamanho certo, foi levada com outras para conhecer seu lugar no mundo. E foi plantada. Logo, começou a notar mudanças em sua forma: as raízes se aprofundavam, se entranhavam na terra – ela estava se tornando adulta. Aos poucos, Ipá sentiu movimento em seu corpo: formigas caminhavam por ela, o Bem-te-vi pousava em seus galhos, buscando sombra ou comida. Ipá sabia ser lar para os poucos que, como ela, viviam ali – na calçada, onde a terra é sufocada pelo cimento, onde os cipós não se enrolam em seu corpo, macacos não passam por suas galhas e nem as folhas que ela desapegava serviam de adubo, porque eram varridas. Ainda assim, mesmo ali, sabia ser língua de raízes. Passava os dias e as noites conversando com seus companheiros, numa linguagem que a cidade não é capaz de escutar.

Quatro ou cinco anos depois, tudo começou a mudar de novo. Ipá ficou inquieta. Era chegada a hora: nas pontas de suas galhas surgiram os primeiros botões marrons. Logo nasceu a primeira flor, parecendo uma Borboleta-amarela de asas abertas. Sua copa se encheu de amarelo, misturado ao verde-escuro das folhas. Vieram as abelhas, atraídas pelo néctar. O inverno passou, e as flores deram lugar a vagens do tamanho de um dedo indicador, cada uma com três sementes. No verão, as vagens amadureceram. Pela primeira vez, Ipá seria mãe – semearia o mundo com suas sementes-filhas.

As sementes nas vagens já estavam prontas para ser Macharimbé. Era uma tarde quente, e o pequeníssimo estouro seco vibrou no ar. Apenas as formigas, o Bem-te-vi, os marimbondos  e as abelhas escutaram, tamanho o barulho de carros e motos que passam pela Rua Coronel José Porfírio, onde a Ipá morava. As três sementes que cortavam o ar enquanto caíam colidiram violentamente com o cimento. Sem terra, os filhos de Ipá não puderam virar Macharimbé. Ficaram ali na aridez da calçada, condenados a secar até a morte.

Ipá permaneceu firme, oferecendo sombra aos que não pediram, flor aos que jamais olharam, sementes aos que nem sequer notaram. Viveu os seus anos com a serenidade dos que sabem que não pertencem ao asfalto, mas que insistem em enraizar esperança na dureza do concreto. Mas na manhã de 14 de abril de 2025, um desses dias em que o céu parece pesar nos ombros do mundo, Ipá percebeu a movimentação dos homens ao redor dela e de outra Macharimbé ao seu lado. Tudo silenciou por alguns minutos, até um ranger metálico de motosserra quebrar a calmaria. Primeiro tombou sua irmã. Queda súbita, o estalar seco agora representava o corte mortal da vida.

Em seguida foi ela. Cortada, assassinada, diria quem ainda se permite sentir.

Não houve gritaria, nem lágrimas, nem defesa. Perto do portão da universidade, seus corpos tombaram, suas folhas verdes se esparramaram pelo chão. Ficou apenas o vazio: o buraco onde antes havia abrigo. Cortaram o direito de dois seres ainda resistirem como Floresta. Condenaram dois seres à morte sem que eles soubessem, sequer, o que fizeram.

Mas agora elas sabem.

E nós também.

Os vestígios da insensibilidade humana. O toco na calçada é lembrança de quem um dia foi casa e alimento para outros seres. Foto: Lela Beltrão/SUMAÚMA

Por ordem de quem?

A Coordenadoria de Planejamento, Gestão e Avaliação da Universidade Federal do Pará, chefiada por Flávio Morais de Lima, recebeu uma notificação da companhia de energia Equatorial informando que era preciso adequar o local da mureta de medição – onde ficam os relógios de energia, disjuntores e equipamentos ligados ao transformador. Essa mureta está dentro do terreno da universidade. E a Equatorial pedia que o disjuntor e o medidor ficassem na parte de fora do muro para facilitar o acesso à leitura do consumo e prevenir riscos como incêndios causados por curtos-circuitos.

A Coordenadoria se mobilizou em fazer a mudança e contratou uma empresa para realizar a adequação da mureta e realocar o poste com transformador na divisa com a via pública, explicou Flávio a SUMAÚMA por email. Segundo ele, esta empresa identificou “a necessidade de poda das árvores existentes no local”, ressaltou o coordenador. “Como as árvores estão localizadas em via pública, encaminhamos à Prefeitura de Altamira um documento solicitando as providências necessárias. No pedido, foi informada a necessidade de poda e/ou remoção das árvores, conforme deliberação da Secretaria Municipal de Gestão do Meio Ambiente (Semma)”, continuou ele no email. A solicitação foi atendida 13 dias depois.

Quem assinou o ofício com o pedido à Semma foi o coordenador-geral da Universidade Federal do Pará, Djair Alves Moreira. SUMAÚMA teve acesso ao documento e comprovou que ele, de fato, pedia “poda e/ou remoção”, ainda que a empresa contratada pela UFPA para realizar a obra tenha sugerido apenas a “poda”, segundo o que foi relatado por Flávio em email.

A reportagem procurou presencialmente o coordenador Flávio e perguntou se ele teria acompanhado a avaliação da prefeitura para o corte das árvores. Ele disse que estava sobrecarregado devido à falta de servidores na UFPA e por isso não tinha conseguido acompanhar.

Quando a reportagem pediu acesso ao documento referente à notificação enviada pela Equatorial, a companhia de energia elétrica, o servidor se recusou a compartilhá-lo. Pedimos acesso ao contrato da empresa que teria avaliado a necessidade de poda, mas ele orientou a reportagem a procurar nos sistemas de informação de transparência da instituição. Com os dados passados por Flávio, não foi possível encontrar o documento no sistema. Também pedimos, por email, o nome e o contato da empresa, mas ele afirmou que não tinha. Questionada por email, a assessoria de imprensa da Universidade Federal do Pará respondeu que “não conseguiria atender à demanda”.

Macharimbés resistem, perto das irmãs que tombaram. Seguem a sombrear até mesmo a vida daqueles que não se importaram. Foto: Lela Beltrão/SUMAÚMA

SUMAÚMA perguntou à Secretaria Municipal da Gestão do Meio Ambiente de Altamira, a Semma, o motivo da derrubada das árvores. Em nota, a Secretaria afirmou que “no momento da vistoria técnica, a equipe da Semma foi recebida pelo solicitante [UFPA], que esclareceu que a simples poda das árvores não seria suficiente para atender às exigências da concessionária. Assim, indicou-se a necessidade de uma intervenção mais abrangente, ou seja, a supressão das árvores”.

Procurado para comentar a nota da Semma, o coordenador-geral do campus, Djair Alves Moreira, respondeu por mensagem: “Então, nessa altura é claro que vão dizer isso”. SUMAÚMA solicitou entrevista com o coordenador para discutir a política de arborização do campus, especialmente neste ano de COP em Belém, quando se espera que a universidade atue como centro de produção de conhecimento sobre a crise climática. Ele recusou o pedido e, após nova tentativa de contato, afirmou: “Sei que fazemos pouco diante das nossas potencialidades e necessidades da sociedade da nossa região, mas infelizmente até o trivial não estamos dando conta”. Perguntamos também ao coordenador Flávio o que ele teria a dizer sobre a nota da Semma, mas não obtivemos resposta.

Ipá, uma árvore resistente à cidade

Marlon Costa de Menezes, professor da Universidade Federal do Pará no curso de engenharia florestal, explica que a Macharimbé é uma das árvores mais comuns na arborização urbana porque as raízes se aprofundam na terra sem quebrar as calçadas. É também muito resistente e consegue brotar mesmo com uma poda mais radical. “Eu fiquei impressionado, de fato, com essa remoção em frente ao campus […]. As árvores não eram muito altas nem tinham a copa muito grande”, afirma. Para ele, não existia risco de queda.

Professor de biologia do campus de Altamira da UFPA, Rodolfo Salm ficou indignado ao ver as árvores mortas na porta da universidade. Para ele, a universidade não deveria ter pedido poda ou supressão, somente a poda. Ritiely Costa, aluna de pedagogia da UFPA, disse em entrevista que a sombra das duas Macharimbés servia de ponto de encontro ao fim das aulas: “Onde a gente espera um mototáxi, onde a gente encontra alguém. Querendo ou não, tira essa beleza do ambiente, né?”. Para ela, diante das mudanças climáticas e do aumento das temperaturas, o corte das árvores foi “muito negativo” e demonstra que a representatividade amazônica não está sendo considerada pela gestão da universidade. Ritiely acredita que faltam debate e conscientização sobre a realidade dos alunos, que fazem da UFPA uma segunda casa.

O professor Marlon destaca que os municípios amazônicos, apesar de estarem na maior floresta tropical do planeta, têm pouca arborização urbana. “Altamira foi um município colonizado, né? As pessoas vieram para cá e elas tinham a Floresta como um obstáculo ao desenvolvimento. Então, elas vieram para remover a Floresta”, afirma. “Outra questão é do empresariado, que tem essa visão de que uma árvore atrapalha a visualização do seu comércio […] as mudanças climáticas estão aí para mostrar que as árvores são importantes.”

Não tem sombra de árvore nesta rua no centro de Altamira. Sobra desconforto a quem caminha nos horários de sol forte. Foto: Lela Beltrão/SUMAÚMA

Um estudo feito por pesquisadores da Universidade Federal do Pará e publicado em 2021 na revista GeoAmazônia concluiu “que a arborização da cidade de Altamira apresenta-se com baixos índices ambientais, necessitando de investimentos e maior planejamento por parte do poder público, favorecendo assim o acompanhamento dessas áreas para políticas públicas futuras”. A Sociedade Brasileira de Arborização Urbana determina que exista pelo menos 15 metros quadrados de copas de árvores por habitante, mas o estudo revelou que Altamira tem apenas 1,72 metro quadrados. A Organização das Nações Unidas recomenda um percentual de cobertura vegetal acima de 30% em áreas urbanas. Altamira apresentou um percentual de 0,49% apenas.

O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima lançou em 2024 o Programa Cidades Verdes Resilientes, uma iniciativa que selecionou municípios com maior vulnerabilidade social e climática para construir ações de mitigação e adaptação diante das mudanças climáticas. Altamira, no Pará, foi um deles. Entramos em contato com a prefeitura e foi confirmada a adesão. Uma equipe técnica da Secretaria da Gestão do Meio Ambiente está engajada na agenda do programa, projetando que, “ao final do processo, Altamira contará com produtos técnicos fundamentais para o planejamento urbano sustentável e para a ação climática local, entre eles: um perfil de riscos climáticos; um perfil de emissões de GEE [gases de efeito estufa]; uma lista de ações prioritárias de alto impacto, definidas com base no contexto local […]” que farão parte do “Plano Municipal Integrado de Adaptação Climática e do Plano Municipal de Redução de Riscos, que vêm sendo desenvolvidos pela Prefeitura de Altamira”.

Em 2019, segundo o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa por Município, Altamira foi campeã de emissão desses gases no Brasil, superando grandes metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro. Em 2023, último dado disponível, ficou em segundo, entre as 5.570 cidades brasileiras. A grande maioria dessas emissões é oriunda da destruição da Floresta.

O jardineiro no apocalipse

O professor Rodolfo atua na arborização do campus 2 da Universidade Federal do Pará e contou a SUMAÚMA os desafios enfrentados. Até 2019, boa parte do campus era tomada por capim. Juntos, o professor e os alunos, que já haviam arborizado o entorno da Faculdade de Ciências Biológicas em 2011, começaram a expandir a arborização pelo restante da área nos anos seguintes. Em 2021, com a pavimentação do campus 2 finalizada, a universidade decidiu criar uma comissão de arborização para planejar tecnicamente o plantio iniciado de forma voluntária. Passaram-se quatro anos, e o plano de arborização oficial ainda não foi realizado, segundo Rodolfo. Apesar disso, a arborização voluntária do campus 2 segue em andamento. SUMAÚMA entrou em contato com a assessoria de imprensa da UFPA, por email, para perguntar sobre o plano e saber se ele foi implementado ou não. Até a conclusão desta reportagem, não houve resposta.

Especialista na área de arborização urbana e integrante da Comissão de Arborização do campus, a professora Márcia Hamada se recusou a dar entrevista e disse, por WhatsApp: “Não tenho certeza de quem fez o corte das árvores e nem se teve autorização”. SUMAÚMA explicou que o objetivo da entrevista não era conversar apenas sobre o corte das duas árvores, mas também entender a atuação da comissão. A professora limitou-se a responder: “A comissão é sobre a arborização interna do campus. Fora do campus a responsabilidade é da prefeitura. Então não passa pela comissão”.

Rodolfo Salm e alunos plantam em 2021 (à esq.). O resultado, crescido, sombreia a rua em 2025. Fotos: Rodolfo Salm e Soll/SUMAÚMA

Enquanto a reportagem entrevistava o professor Rodolfo na Rua da Peixaria – tombada como Patrimônio Histórico de Altamira, onde ele tem outro projeto de reflorestamento –, uma de suas mudas foi encontrada quebrada. Ele lamentou: “É assim, é assim o tempo todo”.

No ano em que Belém receberá a comunidade global para discutir o futuro de um planeta em colapso, a derrubada de duas árvores a pedido da principal universidade pública do Pará, com campus em uma das cidades mais desmatadas da Amazônia, revela como a destruição é normalizada e negligenciada. Quando a morte de duas árvores já não causa espanto, é a vida que está em risco. Isso não é só sobre madeira – é sobre memória, futuro, ar, água, sentido. Um retrato de uma sociedade que escolhe a pressa em vez do cuidado, o concreto em vez do verde, o lucro em vez do tempo. Se não pararmos agora, se não encararmos esses assassinatos com a gravidade que a crise climática exige, muitas outras árvores cairão.

A sufocada raiz de Macharimbé luta com o concreto do canteiro. A base do seu tronco está apodrecendo, mas o poder público ignora. Foto: Lela Beltrão/SUMAÚMA


Reportagem e texto: Wajã Xipai e Juliana Bastos
Edição: Talita Bedinelli
Edição de arte: Cacao Sousa
Edição de fotografia: Lela Beltrão
Checagem: Plínio Lopes
Revisão ortográfica (português): Valquíria Della Pozza
Montagem de página e acabamento: Natália Chagas
Coordenação de fluxo editorial: Viviane Zandonadi
Editora-chefa: Talita Bedinelli
Diretora de Redação: Eliane Brum

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