Jornalismo do centro do mundo

Uma horta pode curar as feridas da solidão?
Por Malu Delgado*

Existe um ritual que precede a fala. Elizângela Baré pega em sua mochila a tinta vermelha feita com folhas de carajuru, pede licença e se dirige ao banheiro, no segundo andar da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), para se preparar. Sai de lá minutos depois com três pinturas no rosto: no queixo, o Aru, sapo criador do mundo e o dono do frio – “a pintura dos Baré”; nas duas bochechas, as flores – o símbolo das mulheres do rio Negro e que “chamam a beleza”; na testa, a marca da tradição, da resistência, da força e da guerra do povo Baré. “Nós, os povos do rio Negro, somos guerreiros. Essa é a pintura da peneira que a gente usa para fazer beiju; é a pintura do cumatá, que a gente usa para tirar goma [da mandioca]”, explica Elizângela.

Primeira mulher indígena a receber uma bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para cursar o mestrado, ela foi indicada ao Troféu Mulher Imprensa na categoria podcast de jornalismo, como apresentadora da primeira temporada da Rádio SUMAÚMA. Elizângela é uma liderança na Terra Indígena Cué-Cué/Marabitanas, no Alto rio Negro, Amazonas. Para ela, pintar-se é “demarcar território, é ter a família junto”, mesmo com seus parentes vivendo a 4 mil quilômetros de distância. “Aqui eu estou reflorestando mentes. A universidade precisa conhecer a nossa história”, diz. A pedido de SUMAÚMA, Elizângela registrou num diário suas primeiras impressões sobre o que é viver em São Paulo, a cidade mais populosa do Brasil e a quinta do mundo (atrás de Tóquio, Déli, Xangai e Daca, se considerada a área metropolitana), com 11,4 milhões de habitantes, construída sobre rios hoje sepultados.

“As pessoas não dão bom dia nem boa tarde. Parece que o tempo delas é sempre indo pra frente. Elas não veem o lado, só vão pra frente o tempo inteiro, como se alguém estivesse correndo atrás delas. Então, mesmo tendo muita gente, eu me sinto muito sozinha”, conta.

Para ocupar espaço na universidade e curar as feridas da solidão, a mulher indígena do povo Baré plantou, na horta da USP, sementes de urucum que trouxe de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas: “Tem um mês que plantei, e já estão saindo as primeiras folhas”. Trouxe também para o seu reflorestamento de almas e mentes a pimenta urubu (para resguardo das mulheres), sementes vermelhinhas de olho-de-boi (para fazer artesanato), sementes de mão-de-onça (para proteger as mulheres, como mãe da floresta) e piripirioca (para dor de barriga e cólicas menstruais). As pessoas da cidade precisam de psicólogo porque não conseguem equilibrar o corpo e a mente, diz Elizângela.

Elizângela Baré se apresenta como cientista social, artesã, agricultora, mulher indígena e, “por fim, uma pesquisadora indígena”. De 2011 a 2015, cursou Sociologia na Universidade Federal do Amazonas. Quando terminou a faculdade, fez formação em educação escolar indígena. Em 2017, foi eleita coordenadora do Departamento de Mulheres da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN). Durante a pandemia de covid-19, Elizângela assumiu um papel central para orientar seu povo, e sobretudo as mulheres, na luta contra o vírus desconhecido e mortal.

Quando a covid estourou, ninguém pensou nos indígenas, muito menos nas mulheres, lembra Elizângela. Como explicar ao seu povo o que era coriza? Como fazê-los usar máscaras sem se preocupar com o descarte delas e o risco de contaminação dos rios? E que bicho era o oxímetro? Por que fazer teste? Como se proteger? Quando o primeiro corpo de um indígena morto pela covid chegou “numa caixinha, cremado”, a comunidade dela entrou em choque. “Isso não é da nossa tradição. Nós enterramos os nossos mortos.”

Responsável por elaborar uma cartilha de saúde em línguas indígenas durante a pandemia, experiência que vai dividir agora com outros pesquisadores na USP, ela percebeu que as mulheres morriam menos que os homens. “Os homens eram mais resistentes, eles não usavam as plantas medicinais nem os banhos, e as mulheres eram o contrário: faziam banhos, defumação, usavam chás, cuidavam das crianças, se cuidavam com ervas medicinais, tudo tirado da floresta, raízes, folhas”, conta. A partir do que viu, ela passou a registrar os “cestos de conhecimentos das mulheres do rio Negro”, a faculdade que as mulheres fizeram no meio da floresta, durante a pandemia.

Para Elizângela, a medicina tradicional e a ciência milenar indígena são dois mundos que podem – e devem – caminhar juntos. Médicos, enfermeiros e nutricionistas não devem hostilizar nem ignorar benzedores, conhecedores de plantas medicinais e parteiras, defende ela. “Nós sabemos tirar uma folha para fazer uma cura, nós sabemos preparar uma raiz para tomar. Quando a gente está com dor de barriga, com vômito ou diarreia, a gente não tem como ir pegar remédio da farmácia. A gente vai pegar o remédio da folha. É isso que eles deveriam entender também. Só que eles não querem.” Com sua pesquisa na USP, ela pretende “escrever e dizer que o conhecimento indígena também é uma ciência milenar”. É só por isso que Elizângela – ou melhor, Kuyã Baré – suporta São Paulo.

*Malu Delgado é editora de conteúdo e chefe de reportagem de SUMAÚMA.


 

‘Interculturalidade reboliça’: São Paulo sob o olhar de Kuyã Baré

Começo com estas perguntas: já andou de avião? Já viajou? Você mora na cidade? O que você come? Já fez faculdade? Já andou de ônibus? Vários questionamentos, muitas vezes sem resposta, porque a minha vivência não se resume só à minha existência, mas à superação que venho traçando.

Sou uma mulher indígena Baré. Ocupar espaço é fazer diariamente o enfrentamento cultural. Aos poucos vamos fazendo incidências para ocupar espaços públicos. Isso requer muita coragem e força de vencer. Somos lideranças, professoras indígenas, falamos e escrevemos o português. Nós, mulheres indígenas, carregamos em nossas falas, guerreiras, a busca de autonomia e igualdade. Sou mais uma guerreira querendo trilhar “o mundo acadêmico”. Isso requer aprendizados jamais vivenciados pela minha pessoa. Na vida acadêmica já percorri diversos caminhos. Aos 39 anos, olho de onde venho.

Será que eu vou aguentar sozinha, sem ninguém da família? Hoje tem a comunicação através do celular, mas isso não é suficiente para mim, não faz parte da minha vivência cultural. O clima aqui me causou medo e aflição. Ao amanhecer fiquei pensando se, longe de minha casa, vou suportar tudo isso pra fazer parte desse espaço que chamamos de universidade.

Fui muito bem recebida por colegas do mestrado e doutorado, sou grata pelas palavras e momentos vivenciados por mim como mulher indígena Baré. É um processo constante de adaptação e sobrevivência: os comportamentos, hábitos alimentares, vestimentas e até mesmo a casa onde eu iria morar, um quartinho minúsculo. Jamais imaginei que passaria por esse processo. Quando vi, senti falta de ar, queria chorar, mas me conformei. Vou conseguir.

Sei que sou capaz de superar a vivência universitária, onde os banheiros são compartilhados e a cozinha é composta de equipamentos elétricos nunca vistos por mim nem pela minha família (como o fogão por indução). A casa onde estou não tem lavanderia, mas teve um dia em que encontrei um igarapé no bairro da Liberdade [ela se refere a uma lavanderia com autosserviço]. A cada obstáculo que surge, aprendo o essencial pra me manter viva e pra ocupar o espaço. Sou grata ao professor José Miguel, às professoras Bárbara Lourenço e Juliana Sangion, do Coletivo de Antropologia e Saúde da Faculdade de Saúde Pública da USP, à Verónica Goyzueta [cofundadora de SUMAÚMA] e demais pessoas que contribuíram para a minha chegada nesta cidade diferentíssima.

30 de maio de 2023 – Coração aflito

Nesse dia começa a nova jornada em minha vida, onde só serei a autora da história indo para um território que não me pertence, deixando o meu coração partido. A minha família não me acompanhará nessa jornada acadêmica. Sempre tive apoio da minha família. Casei muito nova, aos 18 anos, aos 19 fui mãe. Tenho três filhos – para uma mulher indígena isso não é fácil, é muito doloroso. A distância de meus filhos mancha a minha alma profundamente como mãe. Sei que estou indo pra um espaço de recomeço e superação. Assim foi. Fiz o trajeto de Manaus a São Paulo com o coração aflito. Dentro de mim, pensava: o que será de mim? O que vou comer? Como é que vou fazer? Milhões de questionamentos.

Ao chegar ao território chamado de São Paulo, o professor José Miguel e sua família ficaram à minha espera no aeroporto. Neste primeiro momento, fui me hospedar em vossa residência, junto a vossa família, e fui muito bem recebida.

Ao chegar em São Paulo, muita chuva e frio. Recebia mensagens da família, de irmãs, esposo e demais colegas perguntando como eu estava. A palavra que mais respondia era “frio”. Mas respondia também “estou bem, graças a Deus”. Precisei encontrar uma maneira de me proteger de um fenômeno da natureza que não tinha muito o que questionar. A primeira noite foi muito ruim. Os meus dedinhos em constante câimbra refletiam nos meus pés, provocando dores insuportáveis em minha coluna, causando dor no ouvido, no corpo. Eu tinha roupas de frio doadas pela professora Flavia Melo. Outras comprei no brechó da minha vizinha – elas foram as protetoras que tive durante a minha chegada ao território chamado de São Paulo.

31 de maio – Uma nova roça para cuidar

Continuava na casa do professor e sua família. Nesse dia tive oportunidade de ir pela primeira vez de metrô até a universidade, acompanhada da professora Bárbara. Estava muito frio e chuvoso, e eu pensava: “O que estou fazendo aqui? Será que isso é necessário? Será que isso vai servir pra alguma coisa?”.

Nos primeiros dias de São Paulo foi muito duro ver coisas que jamais imaginei. Sempre estive em atividades do movimento indígena, onde tudo sempre já está organizado e programado. Nesta viagem, eu mesma tinha me programado pra tudo.

No meu primeiro dia no metrô foi outra superação. Entrávamos nas profundezas da terra, onde a vida reina como milhões de formigas, correndo pra lá e pra cá. Pensava comigo mesma: “Meu senhor, mais uma prova que estou passando e mais uma história pra contar!”. Ficava imaginando como é que aquelas perfurações tinham sido feitas debaixo da terra… E por cima os carros, ônibus, pessoas e prédios e lojas funcionando como se nada acontecesse nas suas profundezas. Tem milhões de coisas escritas e diversas formas de compreender o destino das linhas do metrô, isso me assustava só de pensar.

São dois mundos distintos vivenciados em São Paulo: as profundezas da terra e a luz do dia na cidade construída em dois espaços geográficos, onde o autor disso é o homem.

Quando cheguei na Universidade de Saúde Pública, aquele prédio me dava calafrios. Eu imaginava o que me esperava dentro daquele local. Tive medo. Será que eu vou aprender todas as coisas dentro deste prédio enorme, dominar isso tudo? Isso me deixou nervosa, aquela vontade de descobrir o que de fato tinha ali dentro. Era uma estranheza e uma necessidade de dominação de território, como se fosse uma nova roça que eu precisaria saber como cuidar. E isso está acontecendo: neste momento estou fazendo disciplina de Saúde Coletiva com gente do direito, economistas, fisioterapeutas, médicos… Eu nunca tinha imaginado que estaria no meio dessas pessoas, com essas formações. Será que de fato vou aprender? Será que vale a pena estar aqui? Fico sempre imaginando isso…

Pra mim foi um dia muito histórico. Ser a primeira mulher indígena do povo Baré, filha de agricultores, sem nenhuma formação acadêmica, nesse espaço onde muita gente vem de famílias nobres, com condições financeiras boas pra se manter. E eu não tinha nem 100 reais na minha conta, comia o que me ofereciam.

Ao chegar ao departamento fui apresentada a alguns professores e aos alunos do professor José Miguel. Fui muito bem recebida. Ganhei presentes de cuidado, como toalha de banho, caneca, sabão, lençóis e cobertores de frio. Aos poucos fui me organizando. Mesmo assim, as preocupações reinavam na minha cabeça, porque sabia que as colegas que me foram apresentadas não teriam disposição sempre para mim.

A universidade tem senha pra diversos acessos e ocupações de espaço, somos compostos por números infinitos. Tudo funciona com eletricidade, sem isso parece que a vida não tem nenhum sentido para as pessoas aqui.

À tarde fomos pegar a chave do meu quarto. Ao chegarmos lá, foi um choque, porque eu nunca tinha vivido num quartinho míni. Fazer o quê? Precisava encarar a realidade. Peguei a chave e fomos novamente para a casa do professor Miguel. Caminhamos desde a universidade. Isso me ajudou bastante, preciso saber caminhar pela cidade e conhecer alguns lugares. Não conheço nada. Só conheço o que preciso pra sobreviver enquanto encaro a jornada acadêmica.

1º de junho – Escudo de proteção

Nesse dia fui tirar o passaporte. Mesmo estando na universidade, o meu lado de liderança não se desfaz de mim porque acredito que ele também é uma das ferramentas que me mobilizam a seguir sonhando para além das dificuldades que enfrentamos em nossos territórios. São nosso escudo de proteção. Por isso aceitei fazer minha primeira viagem internacional para falar em nome dos povos originários no Brasil, em nome da coletividade e da resistência. Sou grata às oportunidades que surgem em minha vida.

Nesse dia também fui à secretaria da universidade buscar os meus cartões de vida, que uso pra comer e me deslocar [cartão de estudante para pegar ônibus e cartão de identificação como estudante da USP]. Chamo de cartão de vida porque se eu não tiver isso não posso comer nem usufruir de nada na universidade, na biblioteca, no bandejão, nem imprimir textos. Para tudo eu preciso desse cartão. Ele tem um número e fala quem eu sou. Nem tem meu nome. Tem um número.

2 de junho – Estratégia de vivência

Fomos com o professor conhecer a 25 de Março [famosa rua de compras da capital paulista] e passamos pelas linhas Verde, Amarela e Azul do metrô. Ficava pensando que um dia vou caminhar por aqui sem acompanhamento do professor, vou aprender tudo isso e mostrar que nós, mulheres indígenas, superamos as coisas e temos vontade de aprender sempre.

Minha família sempre me manda SMS – isso faz com que eu me sinta segura de seguir sonhando com dias melhores para mim e para a coletividade. Sei que tudo é difícil, mas nada é impossível.

A 25 de Março era o que eu via nos livros de geografia da 4ª série: muita gente, a zona urbana, cheia de carros, de gente, de lojas. Vi lá o que mostram para a gente dentro da escola para diferenciar o urbano do rural. Eram coisas que eu nunca tinha visto. É gente demais, nem sei como explicar que existe isso de verdade, fora dos livros.

Ao chegar à 25 de Março logo me deparei com as sementes de açaí – foi muito bom ter conhecido onde tem essas coisas pra confeccionar as minhas artes, pra mim isso foi mesmo incrível. De tarde, fiz a mudança pro meu quartinho geladinho. Nesse dia fiquei chorando bastante, refletindo comigo mesma: meus pais nunca me criaram assim, olha como agora estou vivendo, meus filhos longe, a minha família longe, o meu esposo… Todos estão longe de mim. Se eu ficar doente, quem vai cuidar de mim? Olha esse lugar todo diferente.

Ao escurecer, a Verónica me manda um SMS. Fiquei feliz porque ela disse que tinha agasalho de proteção: era o que eu mais precisava pra suportar o frio. Ela me visitou, olhou meu quartinho e perguntou o que mais eu queria. Fiquei com vergonha, disse que queria comida e fomos ao mercado. Compramos tudo o que é necessário, comentei com ela que a casa não possui lavanderia. Ela instalou o Globoplay no notebook para eu assistir à televisão. Sou grata pela ajuda, assim vou seguindo nesse mundão. Até algodão estou colocando em meus ouvidos pra me proteger do frio.

3 de junho – Sobreviver no meio de máquinas

Fiquei no quartinho mesmo tentando me adaptar à cozinha da casa. Não deu muito certo, mas agradeço a Julia Kaori, colega minha de mestrado, por me ajudar a enfrentar o medo do fogão elétrico.

Estou conseguindo sobreviver no meio de máquinas que fazem tudo. Falei pra Kaori que desde que eu cheguei não tinha conseguido cozinhar. A gente viu no YouTube como fazer a ligação desse fogão. Enquanto não tem panela, o fogão não dá a quentura.

Estou assim, como em uma roça de que a gente cuida pra ela não desaparecer. Tudo o que aprendo eu procuro pôr em prática. É errando que se aprende.

4 de junho – Interculturalidade reboliça

Fui conhecer a residência de Tamires Machado Moreira. A Tamires fez pesquisa de campo pro doutorado sobre as parteiras no meu território, em São Gabriel da Cachoeira, por isso eu conheci a Universidade de Saúde Pública da USP. Ela é obstetra e a pessoa mais próxima que eu conheço em São Paulo, ela e o professor José Miguel. Viajei junto com ela pelo meu território em 2019.

Fui sozinha até a casa dela, de metrô, e meu coração na mão. Consegui. Desci na Liberdade. Nesse dia conheci um mercado onde se lava roupa – ou seja, uma lavanderia dentro do mercado. Aqui tem de tudo, mas você só tem acesso se tiver dinheiro.

A cidade grande é assim: tudo é movimentado pelo dinheiro. Muita gente mora na rua, eles chamam de mendigos. Uns têm muito e outros nada têm, é uma pirâmide muito complexa. Enquanto no território indígena a coletividade reina e os frutos da natureza se multiplicam, aqui tudo é manipulado e manuseado. Quem tem dinheiro e emprego tudo bem, mas pra quem é estudante, como eu – e mãe –, é muito difícil.

Tudo o que vejo aqui penso em meus filhos: o que eles diriam disso junto comigo? Sei que tudo o que estou vendo e sentindo ninguém poderá contar melhor do que eu, o que de fato essa cidade gigante tem. Por seu interior desconhecido, milhões de prédios, milhões de pessoas, interculturalidade reboliça, sem serem percebidos pelos indivíduos que a compõem.

Para as pessoas daqui tudo parece natural. Será que as pessoas estão lendo sobre as mudanças climáticas? Será que elas só pensam nelas nesse lugar? Não pensam que o alimento delas vem da terra? Que se não tiver água, se não tiver chuva, se não tiver terra, o que elas vão comer?

A preocupação das pessoas é só assim: eu tenho meu trabalho, eu vou, eu volto, e não penso pra além das coisas. Não vejo preocupação sobre por que está tão frio, tão quente, sobre por que tem enchente. São as formigas que trabalham dia e noite e não sabem pra quem. Dizem que é pra uma rainha.

Nesse dia fui ao cinema pela primeira vez. Foi muito bom porque cada vivência vai me ensinando… Eu nunca tinha ido ao cinema. Foi muito estranho. O cinema falava em inglês e era traduzido em português. Tinha que ler. Ver naquela telona, com aquela cara, dá um susto. Eu sempre fico imaginando como é a vida dos brancos. O cinema é muito diferente do slide, é outra visão pra compreender, de tentar estar dentro daquele lugar. Parece que você está no meio do filme, tipo dentro de um rio, cercado.

5 a 7 de junho – Cestos de conhecimentos

Fui na primeira disciplina de pós-graduanda – um momento de muita troca de conhecimento e aprendizado. Pra mim é mais um espaço de cuidado que se inicia, momento de reflexão. Estou conseguindo aos poucos. Já percorri diversos processos.

O meu esposo, mesmo de longe, me xingando, dizia: “Você já gastou muito, as pessoas estão lhe ajudando, fica por aí mesmo, você vai conseguir”. Não sei se ele fala isso com sinceridade, mas procuro acreditar que sim.

Estou aprendendo, aos poucos, o que é uma Faculdade de Saúde Pública. O mundo acadêmico requer leitura e descrição sobre as diversidades de conhecimentos. Partilho os cestos de conhecimentos das mulheres rio-negrinas, que são compostos por infinidades de diversidades, com plantas medicinais e cuidado com o resguardo do corpo. Ouvi muitas palavras técnicas, vou conhecendo novos conceitos sobre saúde. Sei que aqui são aprendizados e mais aprendizados.

Conheci a parenta Sarlene Macuxi, de Roraima. Ela é a primeira indígena no doutorado da USP, e eu no mestrado. Fomos pra uma exposição de venda de livros. Cada momento é feito como uma criança que está aprendendo a caminhar os seus primeiros passos.

9 a 11 de junho – Tudo está em jogo

Fomos para a Pinacoteca apreciar a dança final da família de Francineia Baniwa, mulher indígena muito forte e sempre com vontade de vencer os desafios da vida. Sei que nada é fácil, tudo é diferente: o hábito alimentar, vestimentas, modo de falar… Ainda mais pra nós, mulheres indígenas. Tudo está em jogo, nosso território, nossas famílias.

Nesse dia, ao ver o pai, o irmão e o filho junto dela, pensei: ela deve estar muito feliz porque tem uma parte dela que a acompanha, um dia terei alguém de minha família bem próximo a mim… Queria poder ter também alguém com quem pudesse dividir os momentos que estou passando, contar pros meus filhos e netos cada lugar em que fui, cada comida que comi, cada momento que passei. Sou uma mulher nômade à procura de uma vida melhor e de superação, porque o contexto indígena é machista e é difícil quebrar o tabu da tradição. Fiquei feliz de poder ver como o espaço que Francineia construiu é importante pra ela. Requer uma coragem da ancestralidade que a acompanha.

12 a 18 de junho – Eu sozinha no meio de milhões

Foi uma semana onde fiz um pouco de tudo. Leio livros, faço artesanato e escrevo. Assim vou fazendo pra que o meu coração não fique com vontade de chorar. Fui até a avenida Paulista sozinha, sem nada pra falar, falar o que e com quem? Milhões de pessoas sorrindo, passeando, comendo, e eu sozinha ali no meio de milhões…

Estou seguindo, chorando em meio a milhões de pessoas e pensando que poderia estar com a minha família, sem ver essa multidão. Isso não me serve pra nada. Sei que um dia vou olhar pra isso e vou dizer: tive erros, mas aprendi sozinha. Só eu e Deus. Só ele sabe por onde eu percorri com o coração na mão, dizendo “será que eu vou conseguir”? Preciso aprender a voar e caminhar com as minhas próprias pernas.

Nesta semana fui ao shopping para retirar o meu passaporte, estou organizando a viagem pra Genebra. Vivi diversos momentos emocionantes. Estou escrevendo porque não tenho como compartilhar com ninguém cada momento que está sendo percorrido por mim. O celular não é igual… Além do mais, não quero preocupar ninguém com as loucuras que estou passando, principalmente a minha família. Meus filhos e meu marido estão no lugar mais seguro do mundo, estão sendo cuidados pelos meus irmãos, irmãs, meus cunhados, pelo pai deles, pelos avós.

Se eles mandam perguntas por celular, se eu estou bem, se eu comi, sempre falo que sim, que não estou doente, que estou na universidade. Nunca respondo dizendo que tenho frio… Sei que um dia vão lembrar de mim como uma mulher indígena, mãe, que sempre acreditou que o estudo pode nos ajudar individualmente e coletivamente, e, assim, vou seguir lutando por dias melhores.

19 a 23 de junho – Renascer com as sementes

Fui pra casa da professora Bárbara lavar as minhas roupas. Retornei pro meu quartinho no dia 21 e, na universidade, fiz a plantação de minhas sementes, que nem sei se vão nascer, porque passaram muito tempo fora da terra.

Na quinta-feira fui pra horta da universidade, onde tive oportunidade de conhecer uma aluna que cuida da horta. Ela me disse que eu poderia, sim, fazer plantações de minhas sementes trazidas do Amazonas. Fui conhecer uma casinha onde eles guardam os materiais de plantações. Ao chegar lá, peguei um pouco de terra e vasos para plantar. Mas, ao procurar água, pensei que tinha uma mangueira. Tem um aplicativo que ajuda a ligar a água, fiquei observando a menina e nada de a água sair. Peguei uns regadores e fui pegar água onde os estudantes lavam as mãos indo pro bandejão. Quanta burocracia para uma horta da universidade!

No dia 30 de junho vou ter uma primeira reunião com a professora que organiza isso. Vamos ver o que ela vai encaminhar. Só quero plantar uma semente de cuidado do corpo, outra de fazer artesanato e outra que é pra comer. Só isso. Espero que dê tudo certo, que elas possam renascer juntamente comigo e assim continuar vivendo em mundos diversos.


Checagem: Douglas Maia

Revisão ortográfica (português): Elvira Gago

Tradução para o espanhol: Meritxell Almarza
Tradução para o inglês: Diane Whitty
Edição de fotografia: Lela Beltrão
Montagem da página: Érica Saboya

© Direitos reservados. Não reproduza o conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação sem autorização escrita de SUMAÚMA