Jornalismo do centro do mundo

Foto/Photo: Pablo Albarenga

Fotos: Pablo Albarenga
Tradução do Yanomami: Ana Maria Machado e Ehuana Yaira Yanomami

 

A MULHER YANOMAMI SENTA NO BANCO DE MADEIRA, ESPANTA COM AS MÃOS OS PERNILONGOS QUE TEIMAM EM SE APROXIMAR. O longo colar de miçangas amarelas cruza seus seios descobertos e contorna sua barriga de grávida. O filho, de 4 anos, se aninha a ela, que lamenta sua magreza. “A malária comeu ele”, explica. Na floresta invadida e controlada pelo garimpo, crianças como ele morrem da doença depois de dias ou semanas de febre alta e vômitos ininterruptos. A desnutrição é uma realidade há vários anos e tem se agravado em várias aldeias. Nos territórios controlados pela mineração ilegal, pequenos Yanomami vomitam vermes. Os medicamentos demoram a chegar ou não chegam. Então a mulher começa a nos contar sobre o que teme ainda mais do que a fome e a malária, ainda mais do que crianças vomitando vermes. Ela conta sobre o que fazem com suas vaginas.

Foto: Pablo Albarenga. Imagens: mulheres Yanomami

O corpo da maior floresta tropical do mundo, grande reguladora do clima do planeta, foi violado e invadido por cerca de 20 mil mineradores ilegais na Terra Indígena Yanomami, um território de 9,6 milhões de hectares entre os estados de Roraima e Amazonas, no norte do Brasil, próximo à fronteira com a Venezuela. Eles abrem crateras no chão, reviram o leito dos rios com suas imensas dragas, despejam fezes, mercúrio, gasolina e diesel em grandes quantidades nas águas da floresta. Parte deles usa armas militares, em algumas regiões há envolvimento com facções do crime organizado -o narcogarimpo. E avançam, diante dos sinais de omissão deliberada do governo de Jair Bolsonaro.

Em março, uma centena deles se aproximou da aldeia dessa mulher Yanomami em busca de ouro. As seis balsas se instalaram a uma hora de sua casa. Um jovem da comunidade foi com a esposa até o garimpo. De olho em sua companheira, um grupo de garimpeiros o estimulou a beber até que o homem caiu desacordado no chão. “Ele estava bêbado, caído, por isso comeram a vagina dela”, conta a mulher. E os estupros seguiram. Uma adolescente de 17 anos foi atraída a uma das balsas por outro jovem indígena que atuava como barqueiro para os criminosos. “Ele disse pra ela: ‘vamos conseguir uma espingarda para o seu pai [caçar], eu quero pegar um motor [de barco]!'”. Ao chegarem lá, deram cachaça à menina. E seu corpo foi violado por um homem. E depois por outro. E mais outro. “Foi um tanto assim [de gente]”, diz ela, sinalizando com as mãos uma quantidade que não sabe precisar.

Após o estupro coletivo, a família da adolescente recebeu pacotes de arroz, feijão, calabresa, farinha e sardinha. Não há para quem denunciar. E, ainda que alguma queixa formal fosse registrada, seria muito difícil encontrar homens que entram e saem da floresta ilegalmente quando e como querem. No território demarcado há exatos 30 anos, sob proteção constitucional do Estado brasileiro, há regiões controladas pela mineração ilegal em que os chefes de garimpo tornaram-se o Estado. Nos quase quatro anos da presidência de Jair Bolsonaro, essa realidade só se agravou, sem nenhuma ofensiva consistente e realmente eficaz por parte do poder público. Diante da pressão nacional e internacional, o governo se limita a fazer operações pirotécnicas pontuais, que por 15 dias destroem maquinários e aeronaves, rendem boas imagens na imprensa, mas nada mudam. Em 2021, foram feitas três. Neste ano, apenas uma, no início de agosto, e os garimpeiros já retornaram.

A mulher finalmente nos pergunta em sua língua. Há dor e revolta em sua voz: “Por que os garimpeiros comem as vaginas das mulheres Yanomami?”.

Por quê? Como respondemos a essa pergunta para uma mulher que testemunha seu mundo ser destruído desde que o primeiro napëpë [branco, estrangeiro, inimigo] colocou os pés na floresta? Por onde começar?

Ana Maria Machado me acompanha. Indigenista e antropóloga, ela é das poucas tradutoras de uma das seis línguas faladas pelos Yanomami e convive com algumas comunidades há 15 anos. Foi incluída à equipe porque buscamos a palavra exata e queremos compreender o que vive o povo Yanomami em seus próprios termos. Mas mesmo Ana não estava preparada para o que escuta e para o que testemunha. Meninas que ela conhece desde os primeiros passos foram violadas e prostituídas, adolescentes que viu crescer aliciam amigos em troca de celulares. É um mundo em dissolução e Ana sabe que, se os garimpeiros partirem, essas marcas permanecerão, porque o que está mudando é uma forma de ser floresta e de estar na floresta, como aponta o grande xamã Davi Kopenawa em artigo desta edição. Como a floresta amazônica, os Yanomami podem estar perto do ponto de não retorno. O extermínio em curso não é apenas físico, por armas de fogo, doenças e contaminação, mas de um modo de vida que plantou parte da floresta que agora pisamos com nossos pés.

Sabíamos que seria muito difícil alcançar as regiões dominadas pelo garimpo, porque os criminosos controlam não só o chão, mas também o ar. Têm informação sobre todos que chegam e até mesmo equipes de saúde enfrentam dificuldades para prestar assistência. Testemunhamos a floresta virar um território controlado por uma espécie de milícia, como aconteceu com as favelas e comunidades de grandes cidades brasileiras como o Rio de Janeiro. E vimos os adolescentes indígenas serem aliciados como foram os meninos negros das comunidades urbanas, primeiro pelo tráfico de drogas, depois pelas milícias formadas por ex-integrantes das forças públicas de segurança. Está acontecendo agora. Diante da escassa resposta do poder público, a principal resistência é de lideranças como Davi Kopenawa, de organizações como a Hutukara Associação Yanomami e de ativistas socioambientais.

Dados que obtivemos por meio da Lei de Acesso à Informação mostram que, desde julho de 2020, polos de saúde que funcionam dentro do território Yanomami foram fechados por 13 vezes devido a ameaças aos profissionais ou a conflitos armados provocados muitas vezes por garimpeiros nos territórios. No Homoxi, garimpeiros expulsaram a equipe de saúde e transformaram o local em um depósito de combustível para suas aeronaves. Neste momento, 5 dos 37 polos do território estão desativados, sem nenhum funcionário de saúde. São 3.485 indígenas abandonados sem qualquer assistência num momento de explosão de doenças.

Quando precisam ser socorridos com urgência, os Yanomami que têm celulares são obrigados a pedir aos garimpeiros para usar a internet instalada pela própria operação criminosa. Desesperados, pedem ajuda à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai). O único helicóptero disponível para a assistência à saúde Yanomami às vezes está quebrado, segundo relatos de profissionais da saúde, enquanto nos céus as dezenas de aeronaves dos garimpeiros voam ilegalmente sem problemas. Na região do Xitei, onde o posto está fechado há cinco meses, pela terceira vez desde meados de 2020, dados oficiais mostram que 7 crianças morreram no ano passado por falta de atendimento. No território Yanomami como um todo, 46 crianças de menos de cinco anos perderam a vida no ano passado por falta de diagnóstico e tratamento. Segundo a Hutukara, em 2022, desde o final de julho até agora, morreram mais oito crianças.

Desde que o preço do ouro disparou, facções criminosas passaram a incluir a commodity em sua carteira de negócios ilegais, avançando sobre regiões como o território Yanomami. Com frequência contam com a cumplicidade de funcionários públicos e o apoio de uma parcela das elites locais, que mantém uma relação com a floresta marcada pelo extrativismo predatório. Se há 28 mil indígenas no local, os invasores são cerca de 20 mil, segundo estimativa de organizações não governamentais, e a tendência é aumentar. Têm armas capazes de enfrentar a Polícia Federal e a Força Nacional. O Sistema de Monitoramento do Garimpo Ilegal na Terra Indígena Yanomami, da Hutukara Associação Yanomami, mostra que atuam em áreas que afetam 273 das 350 aldeias, provocando impactos em regiões ocupadas por 56% da população Yanomami.

O que resta para as mulheres, adultas e crianças, as principais vítimas de todas as guerras? Como então começar a responder à pergunta da mulher Yanomami que dá título a esta reportagem?

Ela vive na região da Missão Catrimani, uma das áreas que pertencem à Terra Indígena Yanomami. Já não é mais possível alcançarmos sua casa sem corrermos risco de morte. O domínio dos garimpeiros já se estendeu até lá e a entrada é controlada. Em cada região que planejamos chegar, pessoas que Ana Maria conhece há mais de uma década avisam que, se entrarmos, poderemos não sair. Os Yanomami estão sitiados e, assim, suas vozes mais e mais silenciadas. Para enfrentar essa barreira sem nos tornarmos vítimas, como recentemente aconteceu com o indigenista brasileiro Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips, executados em junho, no Vale do Javari, outra região amazônica invadida pelo crime organizado, buscamos uma solução. Para que as mulheres pudessem ser escutadas, contamos com o apoio do Instituto Socioambiental (ISA), uma das maiores organizações socioambientais brasileiras, para retirar mulheres dos territórios afetados, de avião, e levá-las ao Demini, região liderada pelo xamã Davi Kopenawa, onde poderiam testemunhar sobre o que vivem sem correr riscos. Botamos em curso uma complexa operação de jornalismo em território de guerra, uma guerra cujas forças são tão desproporcionais que a palavra mais exata seria massacre.

Levamos outro grupo de mulheres para um sítio próximo à capital de Roraima, Boa Vista, uma cidade cujo principal monumento é a estátua de um garimpeiro. Lá pedimos que desenhassem o que escutam, veem, sofrem. São estes desenhos que se misturam às fotografias da terceira pessoa da equipe de SUMAÚMA, Pablo Albarenga. Como elas terão que voltar para o território controlado pelos criminosos, não podem ser identificadas sem correr risco de execução, assim como suas famílias e comunidades. Pablo tem a missão difícil de documentar a realidade dramática do território Yanomami em imagens – sem identificar as mulheres. A solução encontrada foi mesclar suas fotos a seus desenhos. Cada foto desta reportagem associa uma mulher à sua interpretação pessoal de como o garimpo a afeta. Esta é a imagem que elas revelam ao mundo com o rosto que precisam ocultar.

Uma delas usa uma camiseta branca velha e uma saia curta preta. Em sua casa se veste sempre com uma tanga de lã e miçangas adornando o corpo, mas nesse momento está em tratamento médico na cidade. Faz questão de tingir seu rosto com cinco listras vermelhas feitas com uma pasta de urucum minutos antes de dar entrevista. Sabe que sua imagem não poderá ser mostrada, mas com o ritual ela se apropria do que é. A tinta do fruto amazônico é usada pelas mulheres da floresta para se enfeitar, perfumar e também como protetor solar. Depois de pronta, ela faz o desenho que abre esta reportagem, os pênis desproporcionais que ela estampa deixam o lugar dos pesadelos e migram para o papel.

A mulher indígena conta que, há cinco meses, foi retirada grávida de sua aldeia e levada às pressas a um hospital da cidade. “Perdi meu filho na barriga. Ele nasceu morto no hospital.” Encolhe-se na cadeira. É o terceiro aborto seguido que sofreu nos últimos anos. Antes, teve dois filhos, que estão com 20 e com 9 anos. Abortos espontâneos, indesejados, são incomuns na vida de mulheres como ela. Ou eram.

É impossível saber a causa exata das mortes de seus filhos sem uma investigação. Mas o mercúrio usado no garimpo para separar o ouro das rochas pode levar à má-formação fetal e, como consequência, a um aborto. “O metal contamina os animais aquáticos e acaba ingerido pelas pessoas durante a alimentação. Depois, se distribui por todos os órgãos e tecidos do corpo”, explica Paulo Basta, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Em 2014, uma pesquisa liderada por ele já denunciava uma alta contaminação pela substância nos corpos dos Yanomami. Outro estudo, divulgado em agosto deste ano, também pela Fiocruz, estima que 45% do mercúrio usado em garimpos ilegais é despejado em rios e igarapés da Amazônia sem qualquer tratamento ou cuidado. No início de 2021, os pesquisadores coletaram amostras de peixes no rio Uraricoera, que cruza o território Yanomami e é um dos mais afetados pela mineração ilegal. Descobriram que, a cada dez peixes, seis apresentaram níveis de mercúrio acima dos limites estipulados pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Uma pessoa contaminada por mercúrio pode ter alucinações, convulsões, dores de cabeça constantes e perdas de visão e audição. Além da morte do feto, gestantes expostas à substância podem ter filhos que demorarão para se sentar, engatinhar, dar os primeiros passos, falar e aprender. É um dano que atravessará gerações, já que o mercúrio pode permanecer no meio ambiente por até 100 anos. “O que está acontecendo com os Yanomami é uma crise sanitária e humanitária sem precedentes”, afirma o cientista.

É mais uma pergunta que não sabemos por onde começar a responder: por que a mulher que desenha pênis desproporcionais foi condenada a três abortos? Por que é condenada a temer a próxima gravidez tanto quanto teme a proximidade dos homens donos dos pênis que desenha? Quem vai fazer os criminosos pararem de violar os corpos das mulheres, os rios e a floresta?

Um sobrevoo pelo território Yanomami mostra que o corpo da floresta está coberto por feridas, crateras abertas e reviradas de lama que engoliram as árvores. Marrom avançando sobre verde. A imagem se assemelha ao estrago produzido por bombas lançadas do céu. Um único buraco chega a ocupar até 300 hectares da floresta. Pense em 422 campos oficiais de futebol emendados e terá uma imagem aproximada. Em agosto, último mês com dados disponíveis, o desmatamento provocado pela mineração ilegal já atingia 4.411 hectares – o equivalente a mais de 6 mil campos de futebol.

No chão, a violência tem cheiro. “A água fede”, conta uma Yanomami da região do Parima. Os garimpeiros estão perto de sua aldeia e despejam suas fezes no rio, onde sua comunidade se banha, pesca e coleta água para beber e cozinhar. “Eles fazem cocô na água e a gente fica com diarreia”, relata. Quando não tinha garimpeiro, estávamos bem. Pegávamos caranguejos e peixes bons, bebíamos água muito boa, mas agora está ruim. Se mandarem eles para bem longe, se a água ficar limpa novamente, será que os peixes vão voltar a ficar gostosos?”, pergunta.

Fotografia: Pablo Albarenga,  Desenhos: mulheres Yanomami

Essa não é a primeira invasão massiva do território Yanomami. No final da década de 1980, 40 mil homens se espalharam pela região. Levaram vírus, bactérias e armas de fogo. O resultado foi o extermínio de 14% da população. Dessa época, a principal documentação é de Claudia Andujar, fotógrafa que se tornou também uma das principais vozes a ecoar o massacre do povo Yanomami na imprensa internacional. Xawara é como os Yanomami chamam essa onda avassaladora de doenças que mata seu povo. Naquele momento o território não estava demarcado e a comoção global foi determinante para a homologação da Terra Indígena Yanomami, em 1992, sete anos após a redemocratização do Brasil e quatro anos após a primeira Constituição que reconhecia os direitos dos povos originários.

Davi Kopenawa Yanomami, que teve sua mãe e parte da família dizimada pelo sarampo trazido anos antes por missionários evangélicos, se tornou a voz de seu povo. A queda do céu, o livro que escreveu com o antropólogo francês Bruce Albert, se tornou um marco na literatura mundial e um ponto de inflexão na antropologia. É o testemunho de um xamã a respeito do avanço colonizador sobre o corpo da floresta e sobre o corpo dos seres da floresta. É também o testemunho de um humano da floresta sobre o colapso climático. Os xamãs seguram o céu, mas os xamãs estão sendo mortos pelos napëpë e suas xawara. A expressão poética de Kopenawa se alinha à melhor ciência, ao mostrar que a ação da floresta, esse ente complexo de alta tecnologia formado pelo intercâmbio constante de tantos viventes, é quem “cria” o céu – ou a atmosfera terrestre. Se ela deixa de agir como floresta pela destruição acelerada em curso, o céu “cai”.

A demarcação da Terra Indígena Yanomami e a redemocratização do Brasil, depois de uma ditadura empresarial-militar que durou 21 anos e converteu a floresta num corpo para exploração predatória, significava uma possibilidade de mudança na forma de tratar a natureza e os povos que jamais se separaram dela. Mas os governos democráticos nunca foram capazes ou quiseram estancar a destruição da Amazônia. Ao longo das últimas décadas, a floresta e seus povos sofreram ataques do garimpo ilegal, de grandes mineradoras transnacionais, do agronegócio, de empreendimentos madeireiros e da grilagem (roubo de terras  públicas). Também foram usurpados por grandes obras governamentais, como hidrelétricas, rodovias e ferrovias. Antes das invasões garimpeiras, em 1973, durante a ditadura, a abertura da Perimetral Norte marcou o momento em que os contatos esporádicos com os Yanomami passaram a ser massivos. Alguns indigenistas apontam que a estrada assinalou o início do holocausto vivido por um dos povos mais complexos do planeta.

Quase 50 anos depois, Jair Bolsonaro, notório defensor da ditadura, assim como o atual Congresso, dominado por representantes dos interesses do agronegócio e da mineração predatória, ampliou e acelerou a destruição da floresta num momento em que o colapso climático provoca eventos cada vez mais extremos. Expoente da nova extrema-direita global, Bolsonaro já fez garimpo ilegal quando pertencia aos quadros do Exército. Ao assumir a presidência, em 2019, promoveu um desmonte nas estruturas dos órgãos que fiscalizam crimes ambientais no país, ao mesmo tempo em que estimulava a exploração da floresta em suas falas públicas. “Por mim, eu abro o garimpo. Tem projeto para abrir o garimpo em terra indígena”, disse ele, em 2020.

Durante a campanha, ele já havia deixado claro quais seriam suas bandeiras: “Pode ter certeza que, se eu chegar lá [na Presidência] não vai ter dinheiro pra ONG. Se depender de mim, todo cidadão vai ter uma arma de fogo dentro de casa e não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou para quilombola”, afirmou em um evento público. A promessa de não demarcar um centímetro a mais de terra indígena foi cumprida à risca. A abertura do garimpo legalizado em terras indígenas está em tramitação no Congresso.

A atuação de Bolsonaro provocou comunicações ao Tribunal Penal Internacional por genocídio indígena. Durante a pandemia, ele chegou a vetar água potável para os povos originários, entre várias outras decisões que impediram o combate eficaz à covid-19 e resultaram na morte de algumas das principais lideranças indígenas no Brasil — pelo menos uma delas o último ancião de seu povo, caso da etnia Juma. A pandemia também afastou da floresta as organizações não governamentais que atuavam em defesa da natureza e de seus povos, mas não afastou os predadores. Pelo contrário. A frase “Destruidores da Amazônia não fazem home office” se tornou famosa em várias línguas.

Pandemias como a de covid-19 estão conectadas ao desmatamento de florestas e de outros biomas: vírus que antes estavam contidos pela mata, passam a alcançar os humanos ao perder seu habitat. Ainda assim, no Brasil a pandemia foi usada para expandir ainda mais a destruição da Amazônia. Em outubro de 2018, dois meses antes de Bolsonaro assumir o poder, o projeto da Hutukara que monitora o desmatamento provocado pelo garimpo apontava uma devastação de cerca de 1.200 hectares na área demarcada. Em dezembro de 2021, quase dois anos após o primeiro caso de covid-19 no Brasil, a destruição mais do que dobrou, atingindo 3.272 hectares. Em 2022, até agosto, mais 1.100 hectares da floresta foram consumidos pela atividade ilegal. Outro monitoramento, realizado pelo governo federal, aponta que apenas em janeiro deste ano foram emitidos 216 alertas de desmatamento por extração mineral dentro do território indígena, quase sete por dia. Há casos ainda mais alarmantes: na região do Xitei, a área desmatada aumentou 1.101% entre dezembro de 2020 e o mesmo mês de 2021.

Vetores de doenças variadas, os garimpeiros e sua força de destruição multiplicaram a malária no território Yanomami. Uma mulher da região de Hakoma cruza os braços na frente do tórax, fecha as pálpebras com força e chacoalha o corpo inteiro. É como explica a febre de mais de 40 graus que teve ao contrair a doença. Conta ter ficado em “poremu”, o que significa um estado de fantasma ou de espectro porque sua imagem vital foi afetada. Não conseguia fazer nada, sequer aguentava levantar de sua rede. Em sua aldeia, foi medicada e se recuperou. Algum tempo depois, teve malária pela segunda vez, o quadro se agravou e ela precisou ser levada para o hospital de Boa Vista.

De sua casa, na aldeia, ela escuta o dia inteiro o barulho das máquinas de extração de ouro que trabalham na floresta. “Pó-pó-pó-pó-pó-pó-pó”, narra ela. Marca o ritmo que se tornou cotidiano com os punhos fechados. O ruído não para nem quando a noite chega. “Lá descem muitos aviões. No lugar onde eles fazem os buracos descem espingardas, cartuchos, lençóis, comida, combustível, essas coisas”, conta.  Os dados que obtivemos por meio da Lei de Acesso à Informação demonstram um aumento avassalador da doença. Entre 2018, quando o número de garimpeiros ilegais disparou no território, e 2021, os casos de malária aumentaram 105%. Se em 2014 foram 2.928 ocorrências, em 2021 esse número saltou para 20.394. Pelo menos 15 pessoas morreram no ano passado, dez delas eram crianças de 1 a 9 anos.

O medicamento usado para o tratamento da doença provocada por um dos tipos de protozoários, o Plasmodium vivax, está em falta no Brasil, segundo admite uma nota técnica do próprio Ministério da Saúde, obtida com exclusividade pela agência de jornalismo independente e investigativo Amazônia Real, assinada em junho deste ano. É a cloroquina, que foi falsamente propagandeada por Jair Bolsonaro como um antídoto para combater precocemente a covid-19. Além de dar uma falsa sensação de segurança diante da pandemia, a mentira disseminada pelo presidente brasileiro causou desabastecimento de um medicamento essencial para combater a malária, ampliando a tragédia entre os indígenas. “A saúde está em colapso”, define Júnior Hekurari Yanomami, presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami (Condisi). “Não tem remédio para verme, não tem cloroquina, a fome está chegando. A nossa história está sendo interrompida.”

Com a doença, vem a fome e a desnutrição. O modo de vida tradicional dos Yanomami envolve passar a maior parte do tempo cuidando da roça, coletando frutos e outros alimentos da floresta, além da pesca e da caça. Quando grande parte da população adoece, a roça é perdida e a coleta não é feita. A contaminação dos peixes e outros animais dos rios por mercúrio e outras substâncias tóxicas agrava a situação de insegurança alimentar. Com a invasão de milhares de homens e suas vilas abertas à força na mata, os animais que poderiam ser caçados desaparecem. É uma destruição em cadeia do sistema alimentar de um povo, que vê seu modo de vida milenar se tornar repentinamente impossível. Passa então a ser obrigado a mendigar comida de seus algozes, em geral alimentos ultraprocessados. O preço que pagam é sempre muito, muito alto.

“Nossa roça alagou tudo. Foi muita água. As macaxeiras apodreceram. Meu neto diz que está com fome”, diz outra mulher Yanomami. “Não tem macaxeira e por isso eu e meu marido viemos para a cidade [para tentar conseguir cestas básicas]. Nossa nova roça ainda está pequena. Todas as crianças emagreceram, por isso estou muito triste!”. Ela mora no Palimiu, onde o desmatamento aumentou 228% entre dezembro de 2020 e o mesmo mês de 2021. Conta que os garimpeiros usam uma mangueira para drenar a água para as máquinas que separam o ouro e jogam o líquido contaminado de volta à floresta.

Em abril de 2021, um grupo de Yanomami do Palimiu barrou uma embarcação dos invasores que passava em frente à aldeia e apreendeu 990 litros de combustível que eles levavam ao garimpo. Mineradores que vinham em outra embarcação atiraram contra os indígenas. Depois disso, outros nove ataques a tiros se seguiram até agosto do ano passado. Em um deles, duas crianças se perderam de seus parentes. Foram encontradas mortas dentro do rio, com sinais de afogamento.

Em outras aldeias, porém, a entrada de garimpeiros tem acontecido sem resistência. Os invasores são, muitas vezes, chamados pelos próprios homens da comunidade. No ano de 1500, quando os primeiros invasores portugueses aportaram no Brasil, ficou clássica a troca de quinquilharias como espelhinhos por ouro. A mesma troca ordinária se repete neste momento, mais de cinco séculos depois, no território Yanomami e em outras regiões amazônicas. Jovens indígenas se aliam aos destruidores em troca da versão contemporânea dos espelhinhos, que vai de cachaça a celulares baratos. Mais recentemente, também querem ouro. Davi Kopenawa costuma nomear os brancos como “povo da mercadoria”, porque gostam de coisas, bugigangas, e as trocam pela vida. Esse gosto por mercadorias começa a seduzir os adolescentes Yanomami.

Há relatos de que jovens Yanomami aliciam meninas que recém-menstruaram para que garimpeiros façam sexo com elas em prostíbulos montados dentro dos acampamentos. Relatos de alcoolismo de indígenas nessas corrutelas de garimpo já se multiplicam. A bebida costuma ser comprada com o que recebem no trabalho com garimpeiros. “Quando eles querem comprar cachaça [na cantina do garimpo], eles compram e voltam bêbados!”, diz uma das mulheres que entrevistamos. Esses acampamentos vão virando vilas, com vários comércios e cabarés e, se seguirem a colonização do Brasil e não forem barrados pelo Estado, logo haverá pequenas cidades totalmente ilegais dentro da Terra Indígena Yanomami, uma afronta sem precedentes à Constituição do Brasil e às leis internacionais.

Uma das mulheres que entrevistamos é ainda uma menina. Seu par de chinelos cor-de-rosa é tamanho 30, usado por crianças de seis anos com a estatura esperada para a idade. Ela tem 18 anos, mas mede menos de 1,20 metro e fala tão baixo que por vezes é impossível entendê-la. Está em Boa Vista, mas não lembra como chegou à cidade.

A menina morava em um garimpo ilegal, próximo à sua aldeia, e dormia com outras três garotas Yanomami, duas de 14, e uma de 13 anos, na varanda de uma casa de madeira. Diz que era um “prostíbulo”. Convencida por um jovem de sua comunidade a fugir de casa junto a uma prima, conta que ficava ali por comida. Sua meia irmã, de 14 anos, já tinha sido levada antes dela. Fazia sexo com os invasores em troca de arroz, bolacha, macarrão e açúcar.

As mulheres não indígenas dormiam no lado de dentro, mas as adolescentes Yanomami atavam suas redes no lado de fora. No garimpo, adoeceu de malária. Sem ajuda, desmaiou e seu corpo foi abandonado pelos garimpeiros em sua aldeia. A emergência foi chamada, e ela foi levada de avião diretamente à UTI em Boa Vista. E assim acordou sozinha na cidade. Agarrada a um pirulito cor-de-rosa, a pequena Yanomami não admite se prostituir, apenas afirma que as outras se prostituíam. Não faz ideia de que preservativos existem. Outra mulher, da região do Parima, conta que as mais jovens acabam sendo as principais vítimas dos invasores: “os garimpeiros gostam de transar com as meninas, não é com mulheres adultas, são as pequenas. É assim que eles fazem.”

Na aldeia Demini, a artista Ehuana Yaira Yanomami, que nos ajudou a traduzir outras línguas Yanomami, vive em um dos redutos da floresta onde o garimpo ainda não chegou. A única fotografia em que as mulheres expõem o rosto são dela e de suas duas irmãs. Ehuana escuta o som das araras e das folhas balançando com o vento. Anda entre as árvores que conhece desde criança e abre caminho com um facão para chegar a um trecho do rio onde os peixes já estão aparecendo. Com ela estão as mulheres que levamos para esse encontro, vindas de regiões corroídas pelo garimpo. Reencontram naquele momento um modo de vida que se distancia delas, lembram ali do que lhes foi arrancado.

Na comunidade, organizam uma pescaria coletiva com folhas de timbó retiradas de suas roças. A erva tóxica, macerada e misturada com a terra, é jogada no rio. Isso faz com que os peixes boiem, após ficarem temporariamente asfixiados, e possam ser facilmente capturados. Os movimentos precisos dos meninos e homens com suas flechas e das meninas e mulheres com seus facões e cestos garantem o alimento. Repetem ali os gestos dos ancestrais, enquanto a ameaça se aproxima do Demini.

“Quando acordamos, um pouco antes do amanhecer, às vezes pensamos: ‘será que preciso arrancar macaxeira agora cedo? Estamos sem beiju, vamos ficar com fome!’. E saímos para arrancar macaxeira. Mas antes comemos um pouquinho esperando o dia clarear. Comemos um pouco de banana, não saímos com fome. Quando vamos arrancar macaxeira levamos nossas filhas, os homens não nos acompanham.  Depois carregamos lenha para casa, para que possamos cozinhar. É assim que o nosso pensamento nos faz agir. Se ao acordar quisermos ir para a floresta, se tivermos dormido com fome e quisermos pescar, vamos até a roça colher folhas de timbó. Carregamos essas folhas e fazemos a pescaria. Quando voltamos para casa com os peixes, os cozinhamos e comemos e assim ficamos de barriga cheia e deitamos em nossas redes. Depois vamos tomar banho e, no final do dia, quando estiver quase anoitecendo, alimentamos nossa família novamente. Se tiver carne de caça, comemos um pouco.”

Esse é o dia contado por uma mulher do Demini. Ela e as outras mulheres da aldeia se vestem diariamente com tangas de lã vermelha que cobrem suas vaginas, colares de miçanga trespassados no peito, seios livres para os filhos menores se nutrirem sempre que tiverem vontade. Como quase todas as mulheres Yanomami, têm em média três a seis filhos e andam sempre com o menor grudado ao corpo, carregado por uma tipoia de lã, e rodeada pelos outros pequenos. Elas percorrem a pé os vários caminhos da floresta perto de sua comunidade, conhecem o nome de cada árvore, planta ou inseto ali. Detestam quando precisam ir à cidade fazer tratamento médico e preferem o frescor da floresta. Algumas nunca saíram da mata. A floresta é casa, alimento, medicina, água, luz e sombra. Uma vida que se basta porque está em intercâmbio constante com tudo o que é vivo. As famílias convivem sem paredes que as separam. Nas rodas de conversas entre as redes, as mulheres soltam gargalhadas. Sabem, porém, que seu mundo está em convulsão. E, se continuar, o céu vai cair.

Ali, no Demini, terra do xamã Davi Kopenawa, não correm riscos, não ainda. Mas temem. Aquelas que chegaram para contar do mal que avança na floresta as enchem de presságios. “No futuro os brancos vão acabar com a gente”, diz uma delas. “Os napëpë estragam os Yanomami.”

As mulheres do Demini olham com temor os grandes moxi xawarapë, a palavra Yanomami para “pênis cheios de doenças”, desenhados pelas visitantes. Sabem o que os napëpë e seus moxi xawarapë reservam às mulheres indígenas. Uma delas verbaliza: “Se os garimpeiros comerem nossos ânus, vão nos fazer sofrer. Vão matar nossos filhos e comer a vagina de nossas filhas”.

Nenhuma delas sabe responder à pergunta de por que eles comem as vaginas das mulheres Yanomami, por que invadem a floresta e seus corpos, porque estupram a elas e à mata. Nenhuma resposta é sequer sussurrada. Esse mistério brutal só os napëpë conhecem.

Edição: Eliane Brum
Assessoria antropológica: Ana Maria Machado
Infografia: Rodolfo Almeida

* Sumaúma teve apoio do Instituto Socioambiental (ISA) para fazer essa reportagem.

*Este texto foi atualizado em 16 de setembro.

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O QUE O GOVERNO BOLSONARO DIZ:

A Fundação Nacional do Índio (Funai), órgão responsável pela proteção dos povos indígenas brasileiros, afirmou que o território Yanomami conta com cinco Bases de Proteção Etnoambiental (Bapes) da fundação: Serra da Estrutura, Ajarani, Walo Pali, Xexena e Korekorema. “Todas essas unidades são responsáveis por ações permanentes e contínuas de proteção, fiscalização e vigilância territorial, além de coibição de ilícitos, controle de acesso, acompanhamento de ações de saúde, entre outras atividades”, afirmou o órgão. Informações do Ministério Público Federal, porém, apontam que as bases de Walo Pali, Serra da Estrutura e Xexena foram resultantes de ações civis públicas movidas pelo órgão, o que significa que a Funai fez as bases após ter sido obrigada pela Justiça. A de Ajarani foi a única delas que não foi implementada por ação judicial. A base de Korekorema, que a Funai diz estar funcionando, está vazia, segundo o procurador da República Alisson Marugal, titular do ofício de defesa dos direitos e minorias, em Boa Vista. Em decisão de março deste ano, a Justiça Federal impôs uma multa diária de 10 mil reais à Funai por ainda não ter reativado a Bape.

A entidade ressalta ainda que “diversas ações conjuntas foram realizadas em parceria com órgãos ambientais e forças de segurança pública competentes, sobretudo no Plano Operacional de Atuação Integrada, coordenado pela Secretaria de Operações Integradas do Ministério da Justiça e Segurança Pública”. A operação, entretanto, também foi realizada após uma ação movida pelo Ministério Público Federal, aponta o procurador. No ano passado, foram feitas três operações. Neste ano, a primeira aconteceu apenas em agosto. “Essas operações duram 15 dias, têm um resultado muito bom. Mas o garimpo se reconstrói facilmente”, afirma Marugal. “A situação tomou realmente uma proporção gigantesca. O governo teria que colocar uma aeronave por seis meses para combater os pontos logísticos, como as pistas de voo e os portos fluviais”, diz.

O Ministério da Defesa e as Forças Armadas, responsável pela vigilância em áreas de fronteira, como a Terra Yanomami, que fica próxima à Venezuela, afirmou em nota que produz análises especializadas, que servem para embasar a atuação de outros órgãos e que lançou, em maio deste ano, os primeiros satélites do Projeto Lessonia, cujas imagens serão utilizadas em apoio ao combate de mineração ilegal. O Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos limitou-se a declarar, diante das informações sobre abusos de mulheres Yanomami, que a “Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos está preparada para receber denúncias de populações tradicionais, incluindo povos indígenas”, e que a pasta “tem atuado continuamente para receber e dar encaminhamento em demandas indígenas e denúncias de violação de direitos humanos que chegam a este órgão.” O Ministério da Saúde não respondeu aos questionamentos da reportagem.